Acabo de assistir o último filme de Woody Allen e a sensação que se tem ao sair de cinema é maravilhosa, de paz! O filme em cartaz, se passa em Paris, ora nos dias atuais, ora na década de 20, incluindo até algumas passagens pela Belle Époque, no final de 1880, “época de ouro” , de acordo com a personagem vivida por Marion Cotillard.
É a história de um roteirista que vive na Califórnia e que, acompanhando os pais da noiva fútil em uma viagem de negócios a Paris, descobre que a cidade é tudo o que ele mais queria na vida, viver no mesmo ambiente onde tantos artistas ligados a arte, música e cinema viveram. Mas o filme é mais do que isto, porque ele realmente consegue após a meia noite, fazer uma imersão na Paris dos anos 20, quando F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, Pablo Picasso, Buñuel, dentre outras “celebridades”, circulavam por ateliês e cafés da cidade.
E não é que numa dessas noites ele realmente consegue, através de uma carruagem da época, adentrar este mundo? Mas o mais interessante do filme – e aqui vale uma discussão mais “corporativa” sobre o assunto – é que só ele consegue visualizar este universo “paralelo”, ninguém mais. Na realidade, quem mais chega perto desta viagem ao passado é o detetive que o segue, mas para sua noiva e sogros, Gil Pendler, personagem vivido com muita propriedade por Owen Wilson, é lunático, portador de algum tumor cerebral ou temporariamente está sob efeito de algum medicamento que provoque alucinações. Acho que ele é o que chamamos de uma “alma antiga”, amante dos clássicos, do passado, de outra época, algo assim. Um cara meio “vintage”.
A realidade é que ninguém acredita neste mundo surreal porque isto só existe em sua mente e eu me pergunto quantas vezes na vida acreditamos tanto num projeto, com tanta confiança, com tanta certeza que aquilo vai dar certo, quando ninguém mais percebe o que estamos vendo, porque afinal é algo tão incrível, inovador, sensacional, que se torna real – mas de novo, só para nós. E aí, instala-se o dilema: acreditamos piamente em nosso projeto, lutamos por ele, brigamos com todo mundo ou simplesmente na segunda ou terceira olhada esquisita que recebemos, deixamos o plano de lado, porque afinal, se ninguém acredita, por que insistir?
Nesse momento, podemos ter uma visão empreendedora do projeto e lutar – e talvez obter um estrondoso sucesso ou trabalharmos em nosso escritório, fazendo nossas tarefas repetitivas, sem muita paixão e com um tristeza infinita no olhar, que ninguém entende porque. É uma questão difícil – porque somos obrigados a garantir nosso ganha-pão, aquela rotina segura, concreta, contínua, que nos mantém conectada com o mundo, mas se conseguíssemos abrir aquela porta – o que será que nos esperaria? Nós mesmos talvez, numa versão mais feliz e melhorada?
“Meia Noite em Paris” mostra, de uma forma muito sensível, que não podemos abdicar da vida, nem dos nossos sonhos, por mais loucos que pareçam ser! Pelo menos no filme, nos momentos em Gil Pendler abria esta porta, sem medo nenhum, ele era o homem mais feliz desta terra!
