Existem milhões de pessoas por ai. Você cruza com elas todos os dias. No metrô, nas ruas, nas lojas, no caixa do banco, às vezes dá até um pequeno esbarrão, se desculpa sem nem olhar para o outro, meio automático e segue adiante. Volta para casa e pensa que na realidade, viu um monte de gente – e não notou ninguém.
Isto acontece 365 dias por ano – mas há o ano bissexto, aquele que tem um dia a mais – é quando fevereiro tem 29 dias – alguma coisa a ver com sincronia com o calendário solar – e ocorre a cada 4 anos. Às vezes, pode ocorrer a cada 40 anos….depende do ponto de vista, mas há um dia – um dia apenas diferente dos outros, em que aquele esbarrão é seguido do pedido de desculpas, mas desta vez, você olha para a pessoa, por algum motivo desconhecido e seus olhos encaram os dele com uma pontinha de interrogação. Você diz: Desculpa!, mas por algum motivo espera uma resposta, espera que ele aquele momento se prolongue um segundo a mais, porque parece que há tanto ali, há esperança, há promessas, há curiosidade. É quase uma pergunta: Desculpa? E aí, você pode acrescentar a frase que quiser: Desculpa? Se não te encontrei antes, se não esbarrei em você o ano passado, se não estava aqui ontem.
Claro que isto é uma analogia para explicar porque algumas pessoas nos tocam de maneira diferente e não é um toque físico – é um sinal que ela envia, sem dizer nada, um radar, dizendo “olha eu aqui”. E este radar olha para você, após ter enviado a mensagem vezes sem conta….só que desta vez você acena levemente com a cabeça, como a dizer: “Sim, captei sua mensagem. Eu sei que você está aí e sei exatamente o que você está pensando”. Tudo isto sem ninguém emitir uma palavra – e quem disse que entre duas pessoas não existe um mundo de palavras, olhares e gestos que ninguém percebe, somente você e o outro?
E aquela mensagem se materializa num aperto de mão, num toque, num café no dia seguinte, numa música tendo a lua por testemunha – e bem, a história continua. Palavras viram sussurros, que viram sorrisos, que viram gargalhadas, que viram…todo mundo sabe o que!
Mas no outro dia já é março! O mês de fevereiro vai voltar só daqui a quatro anos de novo. E você se pergunta? Por que? Por que já é março? Não é melhor viver tudo com alguém por algum tempo, do que viver uma vida árida, boba, sem sentido com alguém, a vida inteira? Pense em emoção ou estabilidade, sensibilidade ou constância, frio na barriga ou previsibilidade e faça sua escolha.
E quando você acha que seu dia 29 de fevereiro só vai chegar daqui a quatro longos anos, ele volta no ano seguinte. Aquele calor que você sentiu o ano todo ainda é o calor da lareira que ele acendeu em seu coração e que te mantém aquecida à noite, que te mantém com aquele sorriso bobo e um olhar no oceano. O barco vai voltar. E nele virá seu pirata. Ele roubou seu coração. OK, foi consensual! Mas, milagres acontecem.
Ele está trazendo-o de volta – e desta vez, trouxe embrulhado num presente, com um nó de marinheiro, que só ele – malandro experiente – vai conseguir abrir, ainda que leve muitos anos. Um nó tão complicado que são necessárias quatro mãos, dois sorrisos e um só desejo para abrir. O velho lobo do mar está voltando para casa. Cansado, com fome e com mil histórias. Hora de preparar uma bebida forte, aquecer a cama e esquecer o tempo.
A sua casa é o meu coração.
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