Eu tinha que ver com meus próprios olhos! Precisava estar ali a alguns metros de onde tudo aconteceu. Precisava ver o que tinha sobrado, mas não havia nada que lembrasse o que estava ali antes. Estou falando do WTC em NY, ou melhor, do espaço onde ficavam as Torres Gêmeas, estupidamente destruídas no atentado de 11 de setembro. Estive nas torres há muitos anos. Lembro de como demorou para chegar lá em cima, lembro do medo que senti porque afinal, foi uma viagem vertical, rápida para um lugar muito, muito alto, dentro de um gigantesco edifício de ferros e vidros.
E hoje nada mais existe daquilo. O que existe é um trabalho de reconstrução. As obras estão a todo vapor, existe um complexo sendo construído, com torres, praças, jardins. Outros monumentos tomarão o lugar daquilo que foi durante muitos anos, junto com a Estátua da Liberdade, os luminosos da Broadway, a ponte do Brooklin e o Empire State Building, um dos símbolos mais marcantes da cidade de Nova York. Mas existe outra reconstrução em andamento: a do próprio passado.
Conversando com uma policial, ela me disse que perdeu alguns amigos mais antigos que trabalhavam na corporação na época. Disse que acabara de entrar na força policial e comentou do orgulho em fazer parte do grupo que “protege e serve” a sociedade – algo que fazia seu dia passar rápido e com muita alegria. Choramos juntas. Eu disse a ela que a tragédia não podia ser considerada apenas uma história triste de Nova York, mas uma tragédia que abalou o mundo todo. Creio que é o único fato, além do nascimento de um filho ou da morte de um parente querido, que todo mundo lembra exatamente o que estava fazendo no momento, porque todo mundo parou o que estava fazendo para acompanhar as notícias horríveis que eram narradas a cada segundo.
Nova York não é a mais mesma. Ela não esqueceu o atentado e nunca esquecerá. Existem milhões de coisas que lembram o fato – até uma lojinha dentro do próprio Memorial, vendendo souvenirs da cidade – bem ao lado de cenas incríveis do resgate. Há até uma escultura da Estátua da Liberdade com objetos de pessoas que estavam nas torres ou fotos de pessoas que morreram no atentado, sapatos, fotos, bilhetes, quepes, roupas empoeiradas, está tudo lá.
O que acontece também é uma reconstrução do tempo, uma reconstrução da história, como se, sendo proativo hoje, pudesse a cada dia minimizar a dor que os americanos têm sentido desde então. Como se cada trator, cada máquina que trabalha sem cessar, pudesse mostrar que enterrados todos os escombros, a história se renova.
E quando a história se renova, existe esperança. Esperança de que o homem possa usar esta força incrível para construir uma nova página que será lembrada pelos mais jovens, que afinal, governarão o país e o mundo e quem sabe, observando o orgulho destes trabalhadores, resolvam escrever, através de sua atitude, uma história mais rica e mais sensata para as próximas gerações, até que este fatídico dia possa ser chamado de “O Dia em que Começamos um Novo Mundo”, um mundo que respeita o outro, que aprecia a individualidade, que premia a criatividade, que não impõe barreiras e que, sobretudo, promove a paz, uma palavra que, assim como a dor, também se escreve com três letras, mas que ao contrário desta, celebra a vida, usa o bom senso, traz alegria, busca a felicidade e a entrega – mas só aos homens de boa vontade!
