Um Anjo no Metrô de NY

 

 

 

Na última semana de setembro usei várias vezes o metro de NY porque estava no Brooklin e claro, o agito acontece em Manhattan, então, embora seja uma longa viagem, várias e várias estações, o custo/benefício compensa. Então, vamos de metrô! Numa destas viagens, conheci um senhor, portador de uma deficiência mental, não soube precisar qual – mas notadamente, sua conversa, ainda que articulada, era feita através de um tom infantil, mais alto do que os adultos falam e  seu rosto demonstrava alguns traços de alguma síndrome. É uma pessoa especial, inteligente, mas acima de tudo, o que me chamou a atenção foi seu espírito de solidariedade. Ele é um anjo e não sabe disto!

Ele me contou que usa o metrô há vários anos. Conhece todas as linhas e os nomes das estações. Sabe quantas paradas existem entre qualquer ponto da cidade, fazendo cálculos muito rápidos, em segundos e durante vários anos tem ajudado pessoas que não sabem qual trem tomar. A coisa toda aconteceu informalmente e foi crescendo à medida que a fama foi correndo entre os usuários do metrô.  Se alguém pede uma informação, é automaticamente direcionado a ele, caso se saiba que ele esta nas proximidades – e ele, cortesmente, indica qual caminho tomar. Faz isto durante muito tempo, vários anos.

 Muitas vezes perdeu hora no trabalho porque como ele próprio comenta: “Como posso sair da estação, se algumas pessoas simplesmente não sabem qual trem tomar? O que poderia acontecer com elas?”. Para ele, é uma questão pessoal, quase um dever, tomar conta dos turistas que estão na estação, dos idosos que não sabem se o trem já passou ou não ou dos jovens, iniciando sua jornada e dependendo do metrô pra chegar ao trabalho. E muitas pessoas, que mesmo morando na cidade, não sabem mais que ter tomar, simplesmente perdem muito tempo procurando no mapa a estação correta. Isto tudo parece ser sua responsabilidade e enquanto me conta isto, continua dando dicas para pessoas que perguntam em que estação estão ou quantas faltam para chegar a seu destino.                                                                                                         

Perguntei a ele por que ele simplesmente não trabalhava no metrô? Ele me respondeu: “Que graça teria ganhar dinheiro para fazer algo que não custa nada”? “Além disso”, ele disse, “tenho meu trabalho, o que eu faço é ajudar as pessoas e isto é algo que não se cobra. Como poderia?”  Uau! Fiquei pensando: que razão teria alguém cuja vida é tão cheia de dificuldades, tão cheia de limitações – aos nossos olhos, claro – para se expressar, para ser entendido, para ser respeitado num mundo os especiais não tem muito espaço, qual seria a motivação deste senhor em “gostar” de ajudar as pessoas porque, afinal, “esta é a nossa função”, segundo suas próprias palavras. Ele cuida dos outros, embora eu desconfie  que não exista  alguém que cuide dele. Ele me pareceu ao mesmo tempo tão solitário e vulnerável, mas  tão auto-suficiente. Uma criança dócil e ingênua, num corpo curtido e calejado pelo tempo.

Nunca pensei que ajudar os outros voluntariamente pudesse ser a função de alguém que não ganha pra isto. Na realidade, o mundo está  mais para  um “salve-se quem puder” do que propriamente contando com anjos da guarda no metrô, mas enfim, aquilo me surpreendeu! Existem, sim, pessoas, que gostam de ajudar, pelo simples prazer de fazer o bem ao próximo.  Esperando nada em troca, porque não se trata de uma troca, é um presente dado.

 

Coincidentemente, no dia seguinte, numa outra viagem, um senhor entra no metrô – se apresenta em alto e bom som, chama a atenção de todos no vagão: diz que é um cantor, desempregado, precisa comer e começa a cantar, sem qualquer acompanhamento, uma música do Elton John, popularizada na voz de Billy Paul. A música se chama “Your Song”. Quando ele terminou de cantar, eu e mais umas duas ou três pessoas aplaudiram veementemente e ele passou o chapeuzinho para coletar algum dinheiro. Desta vez, só eu ajudei, paciência. Estava contagiada pelo espírito do anjo da guarda do dia anterior. Um trecho da música que ele cantou dizia: “How wonderful life is now you’re in the world”, algo como“Quão maravilhosa a vida é, agora que você está no mundo”. Aplaudi o músico, porque adoro esta música, mas aplaudi também meu amigo do metrô, aquele anjo da guarda generoso, que torna o mundo um lugar tão solidário, humano, um lugar maravilhoso para viver, porque ele existe e através de sua atitude, torna a vida das pessoas mais simples, por que afinal, estamos aqui para isto – para servir, não para ser servido.

 

Para este anjo da guarda, em qualquer estação em que ele se encontrar e ele deve estar em alguma nesse momento, com todo o meu carinho e respeito, dedico este verso da mesma música: “Anyway, the thing is, what I really mean, yours are the sweetest eyes I’ve ever seen – De qualquer forma, o que eu realmente quero dizer é que os seus olhos são os mais doces que eu já vi”.

Acho que precisamos ser – ou  criar – mais anjos da guarda como este, porque um só não dá conta de tanto serviço! E que um anjo mais poderoso abra suas asas sobre todos nós, em todas as estações do metrô e do ano!

 

2 Respostas para “Um Anjo no Metrô de NY”

  1. Glaucia Guariglia Costa Disse:

    Como sempre, mais uma linda história para nos contar!! Amei!!

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