Palhaço tem dia de folga e nesse dia ele chora.

Costumam dizer que sou uma pessoa engraçada. Pode ser, acho que sou. Nem sempre fui assim, costumava ser um pouco menos atrevida, não falava tudo o que pensava, nem posso dizer que era dona de um grande senso de humor. Mas tenho certa facilidade em pegar algumas manias. Explico: se fico muito tempo nalgum lugar, tendo a falar como as pessoas daquela região, pode ser no nordeste ou no sul do Brasil, deve ser algum processo de mimetização ou osmose, sei lá. Mas esta coisa de ser engraçada, creio que “peguei” de uma amiga com quem trabalhei no Unibanco muito tempo atrás. Esta mulher era a alegria do andar. Falava tudo o que passava em sua cabeça. Era muito divertida e eu a admirava. Achava o máximo falar o que tinha vontade, claro, nas horas certas e para as pessoas certas. Com a gente, pelo menos, ela falava tudo e a gente morria de rir. Era muito legal estar perto dela.
Então, aos poucos, também comecei a falar o que achava e acabava rindo do meu próprio senso de humor. Sabe, acho que a prática ajuda: você começa fazendo uma brincadeira, tirando um sarro de alguém, contando uma historia do “seu” jeito e bem, daqui a pouco todo mundo está rindo, mesmo que a história seja triste – mas daí, talvez, valha o “como” e não o “que” é contado. Não sei. Contava umas histórias muito tristes às vezes e o povo chorava….de rir. Vá entender!
Após ter passado por duas cirurgias do cérebro, ambas com relativo sucesso, tenho um milhão de motivos para rir e me divertir e tenho certeza que cada minuto vivido é uma benção que devo agradecer diariamente a Deus. Quando você escapa praticamente ilesa da primeira e tem que encarar uma segunda um ano depois e bem, continua reconhecendo seus amigos, lembrando de fatos de sua infância, não tem por que não ser feliz, não é mesmo? Alguém lá em cima gosta muito de mim! Amém!
Mas como tudo na vida, há um lado negativo! Ser engraçada também tem seu preço. Parece um trabalho em tempo integral, mas não remunerado. Ocorre que isto acaba virando um jeito de ser, uma forma de viver e cria uma certa expectativa com relação à sua postura, seu comportamento. Então, não é o fato de querer ser engraçada. Algumas pessoas esperam que você seja engraçada o tempo todo, como se fosse um dever estar 100% do tempo de bom humor, pra cima. Ora, como boa Canceriana que sou – e com o ascendente em Câncer, uma jornada dupla que, segundo os entendidos, torna meu mundo um universo de hipersensibilidade, traz uma boa dose de drama e me joga num sem-número de altos e baixos, é um transtorno ser feliz o tempo todo, não dá. É humanamente impossível.
Se estou feliz, estou feliz ao extremo, quase em níveis hilários, se estou triste, posso ser a rainha do drama – e haja lenços de papel para enxugar tantas lágrimas, ou seja, a palavra-chave de Câncer, além de Mãe é Emoção. Tudo o que é sentido é elevado à milionésima proporção. E atire a primeira caixa de lenço quem nunca se sentiu assim. Acho que aquela frase “Meu mundo caiu!” deve ter sido criada por alguma canceriana. Enfim, se na maioria do tempo, somos divertidos, engraçados, também existem os momentos “de lua”, ou seja, o tempo fecha. Neste momento, queremos rir, mas de que? Com quem?
Me entristece vivenciar momentos em que estou “pra baixo” e as pessoas te rodeiam, não porque querem te ajudar, as vezes nem podem, mas porque querem ver a outra “pessoa”, aquela divertida, que as faz rir, como se aquele corpo que está ali necessariamente não agregasse nenhum valor. Se estou triste, pensam que estou “brava” e querem saber o que aconteceu, tudo fica muito complicado, a gente tem que explicar porque está triste, como se fosse um erro, um deslize, uma falha. O mal estar passageiro se transforma num murmúrio geral do tipo “ela está virada”, como se isto fosse a peste negra. Você se sente responsável pelo humor do ambiente todo, entende?
Parece simples, mas é duro ouvir: “Preciso falar com você, porque estou muito pra baixo e quero rir um pouco” ou “Vem cá, conta umas histórias divertidas porque o clima aqui tá um velório” ou pior, se você quer só deitar na piscina do prédio e ler um livro alguém logo pergunta “que bicho te mordeu”? Já ouvi algo assim: ”Nossa, foi ótimo te ver, ganhei a noite, ri por uma semana” Como assim? Você saiu para se divertir ou para divertir os outros? Hellowww!!!! Não sou palhaça profissional. Aliás, agora a palavra da moda é “clown”, pois bem, não sou “clown”, sou apenas uma pessoa que tenta fazer limonada se ganhar um limão, talvez uma caipirinha. Sou otimista, acho que o mundo tem jeito sim e acredito nas pessoas. Mas também, como qualquer pessoa, sofro muito! Se conto uma história triste, as pessoas não podem dizer “Ah, só podia ser com você!”.”Ah, isto é tão você!” Quero um minuto de silêncio, um só, quero empatia, quero solidariedade, depois podem cair na gargalhada, mais tarde. Não quero que as pessoas riam de mim, quero que riam comigo, é diferente, não?
Será que as pessoas sabem que o palhaço quando volta pra casa, tira a maquiagem, guarda sua fantasia, senta numa cadeira, olha em volta e sozinho, sem ninguém para lhe dar um colo ou um ombro amigo e cheio de problemas na cabeça, tem uma vontade louca de chorar? Muitas vezes estou usando o nariz vermelho, é verdade….e gosto, mas muitas vezes, ele está vermelho de tanto chorar, mas quem percebe? A gente já não sabe mais se está rindo de alegria ou porque as pessoas estão felizes e isto é o que importa. No fundo, acho que a personalidade do palhaço sai com a água, não é algo permanente. Como diria Milan Kundera, “Nunca somos nós mesmos quando há platéia”!
janeiro 4, 2012 às 2:07 am |
Gostei muito… mesmo. Vim parar aqui com a frase “quem anima o palhaço” no google. Estou refletindo sobre o modo como as pessoas se apoiam em outras e que, nem sempre, os “apoios” estão fortes ou desejam isso. Aspectos que abordou no seu desabafo. Bem… estou relacionando isso com um txt bíblico que gosto muito: Salmo 1. Comparando-nos com arvores, em nossos relacionamentos, somente nossas “copas” são notadas. No muito, os mais sensíveis, olham para nossos “troncos”. Mas o segredo, nosso segredo está na raíz. O “essencial é invisível aos olhos”, já dizia a raposa. Por isso, voltando ao salmo, necessitamos cuidar da nossa raíz, cravando-a no colo dAquele que nos conhece em essência. Ele é nossa seiva. Assim, fincados nEle, seremos fortes, daremos frutos e sombras aqueles que se abrigam em nós.
Foi um prazer e desculpe escrever tanto… mas seu desabafo está afinado as minhas reflexões … Tudo de bom nesse 2012.
janeiro 4, 2012 às 11:14 am |
Olá Robson, é como aquele velho provérbio de para choque de caminhão: Todo mundo vê as pingas que eu tomo, ninguém vê os tombos que eu levo!!! rsrss!!! Fique à vontae para escrever. Gostei do seu post! Abraço e feliz 2012! Gladis